terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Os Maias - Eça de Queirós

Achei Os Maias um romance primoroso. Publicado em 1888, divide-se em duas partes principais: na primeira, temos uma visão panorâmica da família, dos amigos e da sociedade em que vive Carlos Eduardo da Maia; na segunda, o olhar do narrador fecha-se sobre o relacionamento incestuoso de Carlos com Maria Eduarda (sendo que, a princípio, nenhum dos dois sabe que são irmãos). Para contar essa história, Eça se apropria da estrutura da tragédia grega: utiliza desde prenúncios místicos no começo do livro – num tom satírico – até uma escolha errada que conduz à revelação do mal que sutilmente contaminou a vida dos personagens. Destaque para João da Ega, melhor amigo de Carlos, que atua como um Mefistófeles caricato e contraditório.

Trecho 1
"Carlos, no entanto, fumando preguiçosamente, continuava a falar na Gouvarinho e nessa brusca saciedade que o invadira, mal trocara com ela três palavras numa sala. E não era a primeira vez que tinha destes falsos arranques de desejo, vindo quase com as formas de amor, ameaçando absorver, pelo menos por algum tempo, todo o seu ser, e resolvendo-se em tédio, em "seca". Eram como os fogachos de pólvora sobre uma pedra; uma fagulha ateia−os, num momento tornam-se chama veemente que parece que vai consumir o Universo, e por fim fazem apenas um rastro negro que suja a pedra. Seria o seu um desses corações de fraco, moles e flácidos, que não podem conservar um sentimento, o deixam fugir, escoar-se pelas malhas lassas do tecido reles?"

Trecho 2
"O dia famoso da soirée dos Cohens, ao fim dessa semana tão luminosa e tão doce, amanheceu enevoado e triste. Carlos, abrindo cedo a janela sobre o jardim, vira um céu baixo que pesava como se fosse feito de algodão em rama enxovalhado: o arvoredo tinha um tom arrepiado e úmido; ao longe o rio estava turvo, e no ar mole errava um hálito morno de sudoeste. Decidira não sair – e desde as nove horas, sentado à banca, embrulhado no seu vasto robe-de-chambre de veludo azul, que lhe dava o belo ar de um príncipe artista da Renascença, tentava trabalhar: mas, apesar de duas chávenas de café, de cigarettes sem fim, o cérebro, como o céu fora, conservava-se-lhe nessa manhã afogado em névoas. Tinha destes dias terríveis; julgava-se então "uma besta"; e a quantidade de folhas de papel, dilaceradas, amarfanhadas, que lhe juncavam o tapete aos pés, davam−lhe a sensação de ser todo ele uma ruína."

Trecho 3
"Minha cara amiga, se fosse possível que a nossa afeição se passasse fora do mundo, distante de todos os olhares, ao abrigo de todas as suspeitas, seria delicioso... Mas não pode ser!... Alguém tem de saber sempre alguma coisa; quando não seja senão o cocheiro que me leva todos os dias a sua casa, quando não seja senão o criado que me abre todos os dias a sua porta... Há sempre alguém que surpreende o encontro de dois olhares; há sempre alguém que adivinha donde se vem a certas horas... Os deuses antigamente arranjavam essas coisas melhor, tinham uma nuvem que os tornava invisíveis. Nós não somos deuses, infelizmente..."

Trecho 4
"– Essa é outra! - gritou Ega atirando os braços ao ar. - É extraordinário! Neste abençoado país todos os políticos têm imenso talento. A oposição confessa sempre que os ministros, que ela cobre de injúrias, têm, à parte os disparates que fazem, um talento de primeira ordem! Por outro lado a maioria admite que a oposição, a quem ela constantemente recrimina pelos disparates que fez, está cheia de robustíssimos talentos! De resto todo o mundo concorda que o país é uma choldra. E resulta portanto este fato supracômico: um país governado com imenso talento, que é de todos na Europa, segundo o consenso unânime, o mais estupidamente governado! Eu proponho isto, a ver: que, como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os imbecis!"

Em 2001, esse livro foi adaptado numa minissérie de TV. Curiosamente, um dos momentos mais geniais dessa adaptação foi inventado especificamente para ela: o retorno de Maria Monforte, mãe de Carlos e Maria Eduarda. Na cena abaixo, Monforte vai à casa do sogro, Afonso da Maia, conhecer o filho que abandonou quando criança. Lá, descobre que ele e o amante da filha (que conhecera há pouco) são a mesma pessoa - vejam que interpretação do Walmor Chagas e da Marília Pêra (sem falar na trilha sonora: Mozart e Wagner):


video

QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. São Paulo: Nova Alexandria, 2000.
494 p.
Nota: 9,5/10

domingo, 31 de janeiro de 2010

O Crime do Padre Amaro - Eça de Queirós

Finalmente encontrei um romance do Eça que me agradou. Os que havia lido antes (A Ilustre Casa de Ramires e A Cidade e as Serras) me pareceram “burocráticos” demais: corretos, mas com pouco brilho. Em compensação, o enredo de O Crime do Padre Amaro (1876) salta de suas páginas com uma força impressionante – e isso, apesar de alguns defeitos (ver, por exemplo, o exagero naturalista na caracterização dos personagens). Feito padre por escolha da madrinha, Amaro se instala na cidade de Leiria, que reproduz a decadência do país e o modo pelo qual a religião se tornou um disfarce para os vícios dos clérigos. Lá, engravida a jovem Amélia, vendo-se em apuros para encobrir sua falta e manter sua reputação.

Trecho 1 (a adolescência de Amélia)
"Já então sabia o catecismo e a doutrina: na mestra, em casa, por qualquer "bagatela", falavam-lhe sempre dos castigos do Céu; de tal sorte que Deus aparecia-lhe como um ser que só sabe dar o sofrimento e a morte, e que é necessário abrandar, rezando e jejuando, ouvindo novenas, animando os padres. Por isso, se às vezes ao deitar lhe esquecia uma Salve-Rainha, fazia penitência no outro dia, porque temia que Deus lhe mandasse sezões ou a fizesse cair na escada."

Trecho 2
"Era, pois, verdade o que se cochichava no seminário, o que lhe dizia o velho padre Sequeira, cinqüenta anos padre da Gralheira: — "Todos são do mesmo barro!" Todos são do mesmo barro, — sobem em dignidades, entram nos cabidos, regem os seminários, dirigem as consciências envoltos em Deus como numa absolvição permanente, e têm no entanto, numa viela, uma mulher pacata e gorda, em casa de quem vão repousar das atitudes devotas e da austeridade do ofício, fumando cigarros de estanco e palpando uns braços rechonchudos!"

Trecho 3 (palavras do médico, Doutor Gouveia, para um pretendente de Amélia)
"O bom católico, como a tua pequena, não se pertence; não tem razão, nem vontade, nem arbítrio, nem sentir próprio; o seu cura pensa, quer, determina, sente por ela. O seu único trabalho neste mundo, que é ao mesmo tempo o seu único direito e o seu único dever, é aceitar esta direção; aceitá-la sem a discutir; obedecer-lhe, dê por onde der; se ela contraria as suas idéias, deve pensar que as suas idéias são falsas; se ela fere as suas afeições, deve pensar que as suas afeições são culpadas. Dado isto, se o padre disse à pequena que não devia nem casar, nem sequer falar contigo, a criatura prova, obedecendo-lhe, que é uma boa católica, uma devota conseqüente, e que segue na vida, logicamente, a regra moral que escolheu."

Trecho 4 (o relicário de uma das beatas da região)
"Ah, o famoso relicário de sândalo forrado de cetim! Tinha lá uma lascazinha da verdadeira Cruz, um bocado quebrado do espinho da Coroa, um farrapinho do cueiro do Menino Jesus. E murmurava-se com azedume, entre as devotas, que coisas tão preciosas, de origem divina, deviam estar no sacrário da Sé. D. Maria da Assunção temendo que o senhor chantre soubesse daquele tesouro seráfico, só o mostrava às íntimas, misteriosamente. E o santo sacerdote, que lho obtivera, fizera-a jurar sobre o Evangelho de não revelar a procedência "para evitar falatórios"."

QUEIRÓS, Eça de. O crime do padre Amaro. São Paulo: Ática, 1995. 384 p.
Nota: 8,5/10

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

A Arte de Ler - Mortimer J. Adler & Charles Van Doren

A Arte de Ler é um manual prático acerca de como aprimorar a qualidade da leitura. Uma vez que o objetivo de quem lê pode variar, os autores deixam claro que suas sugestões visam àqueles que leem buscando entendimento, e não a quem procura apenas entretenimento ou informação. Posto isso, passam não só a elencar uma série de procedimentos úteis aos leitores como também a abordar a melhor maneira de ler obras de ficção, de história, de matemática, de ciência e de filosofia. Algo que me chamou a atenção foi a consciência textual de Adler e Van Doren: quando parece que foram longe demais em algum ponto, eles próprios esclarecem o sentido do que escreveram ou apresentam (e contestam) possíveis objeções. Uma pena que esse livro esteja fora das livrarias há anos – o exemplar que li, peguei emprestado numa biblioteca.

Trecho 1 (sobre a leitura de obras expositivas)
"À parte os livros cujo estilo ou disposição gráfica desperta a atenção para o que mais precisa de interpretação por parte do leitor, a localização das frases importantes é tarefa que o leitor deve executar sozinho. Há várias coisas que lhe cabe fazer. Já mencionamos uma. Se é sensível à diferença entre os trechos que pode entender prontamente e os que não pode, provavelmente estará capacitado para localizar as frases que têm sobre si a principal carga de significação. Talvez comece você agora a ver como é essencial à leitura sentir-se perplexo e ter consciência disto. Admiração é o começo da sabedoria, quer o aprendizado se dê em contato com a natureza, quer se realize através dos livros. Se você não se interroga sobre o sentido de uma passagem, não pode esperar que o livro lhe transmita conhecimentos que você já não possua."

Trecho 2
"O problema é que para muita gente a discordância não se relaciona nem com ensinar nem com aprender. Para esses tudo é apenas questão de opinião. Eu tenho a minha, você tem a sua, e o direito a nossas opiniões é tão inviolável quanto o nosso direito à propriedade privada. Por esse ponto de vista a comunicação não pode ser profícua se o que se ganha com ela é um acréscimo de conhecimentos. O diálogo pouco mais é do que um pingue-pongue de opiniões contrárias, um jogo em que ninguém faz pontos, ninguém ganha e todos estão contentes porque não perdem, isto é, acabam sustentando as mesmas opiniões com que começaram."

Trecho 3
"A melhor proteção contra a propaganda de qualquer natureza é reconhecê-la pelo que é. Só a retórica dissimulada e encoberta é realmente insidiosa. O que chega ao coração sem passar pelo cérebro pode refluir e embotar a atividade mental. A propaganda absorvida dessa maneira é como um narcótico que não sabemos que estamos ingerindo. O efeito é misterioso; não sabemos depois por que sentimos ou pensamos do modo como o fazemos."

Trecho 4 (sobre a leitura de ficção)
"Lembre-se de que as três primeiras perguntas [de uma leitura ativa] são: primeira: De que trata o livro em sua totalidade?; segunda: Que está sendo dito em detalhe e como?; e terceira: É verdadeiro o livro, no todo ou em parte? (...) Responde-se à primeira pergunta quando se é capaz de descrever a unidade do enredo de uma narrativa, peça de teatro ou poema - interpretando-se "enredo" em sentido lato de modo a abarcar a ação ou movimento não só de uma estória mas também de um poema lírico. Responde-se à segunda pergunta quando se pode discernir o papel desempenhado pelos vários personagens e recontar, com palavras pessoais, os incidentes e eventos importantes em que eles se envolvem. E responde-se à terceira pergunta quando se pode emitir um juízo fundamentado sobre a verdade poética da obra. É verossímil a história? Satisfaz à sensibilidade e à inteligência? Reconhece-se a beleza da obra? Em cada caso, pode-se dizer por quê?"

Trecho 5
"Não há problema em nenhuma tragédia grega que não pudesse ter sido solucionado se tivesse havido tempo suficiente, mas não há nunca. Decisões, opções, têm de ser tomadas num momento, não há tempo de pensar e pesar as consequências; e, uma vez que mesmo os heróis trágicos são falíveis - especialmente falíveis, talvez - as decisões são erradas. É fácil, para nós, ver o que deveria ter sido feito, mas teríamos sido capazes de ver a tempo? Essa é a pergunta que você deve fazer sempre ao ler qualquer tragédia grega."

ADLER, Mortimer J.; VAN DOREN, Charles. A arte de ler. Tradução José Laurenio de Melo. Edição revista e atualizada. Rio de Janeiro: Agir, 1974. 393 p.
Nota: 9,0/10

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

À Sombra das Raparigas em Flor - Marcel Proust

Neste segundo volume de Em Busca do Tempo Perdido, acompanhamos a adolescência do narrador, marcada pelo relacionamento com Gilberte Swann e pela fatídica viagem ao litoral, em que conhece aquela que será seu grande amor, Albertine Simonet. Na análise dos sucessivos estágios dos personagens, Proust emprega vários campos do conhecimento (história, biologia, literatura, moda, psicanálise, música, pintura...), relacionando-os para criar imagens e desenvolver ideias. Prossegue, ainda, o que já iniciara em No Caminho de Swann: a construção de um fascinante retrato da sociedade francesa durante a Belle Époque, período de ouro que precedeu a Primeira Guerra Mundial.

Trecho 1
"Sabemos teoricamente que a Terra gira, mas na verdade não o notamos; o chão que pisamos parece que não se move, e a gente vive tranquilo. O mesmo acontece com o tempo na vida. E para fazer-nos ver como foge depressa, os romancistas não tem outro remédio senão acelerar freneticamente a marcha dos ponteiros e fazer com que o leitor franqueie dez, vinte ou trinta anos em dois minutos. Nos primeiros períodos de certa página, deixamos um enamorado cheio de esperanças; nas últimas linhas da página seguinte vamos encontrá-lo já octogenário, dando penosamente o seu passeio cotidiano pelo pátio do asilo, sem ao menos responder ao que lhe dizem, sem memória nenhuma do passado."

Trecho 2
"Assim, os que produzem obras geniais não são aqueles que vivem no meio mais delicado, que têm a conversação mais brilhante, a cultura mais extensa, mas os que tiveram o poder, deixando subitamente de viver para si mesmos, de tornar a sua personalidade igual a um espelho, de tal modo que sua vida aí se reflete, por mais medíocre que aliás pudesse ser mundanamente e até, em certo sentido, intelectualmente falando, pois o gênio consiste no poder refletor e não na qualidade intrínseca do espetáculo refletido."

Trecho 3
"Quando se ama, tamanho é o amor, que não cabe em nós: irradia para a pessoa amada, onde topa com uma superfície que lhe corta a passagem e o faz voltar para o ponto de partida; e essa ternura que nos devolve o choque, ternura que é nossa, é o que chamamos o sentimento do outro, e mais nos agrada o nosso amor quando vem do que quando vai, porque não notamos que procede de nós mesmos."

Trecho 4
"Como o hábito enfraquece tudo, o que melhor nos recorda uma criatura é justamente o que havíamos esquecido (porque era insignificante e assim lhe havíamos deixado toda a sua força). Eis porque a maior parte de nossa memória está fora de nós, numa viração de chuva, num cheiro de quarto fechado ou no cheiro de uma primeiro labareda, em toda parte onde encontramos de nós mesmos o que a nossa inteligência desdenhara, por não lhe achar utilidade, a última reserva do passado, a melhor, aquela que, quando todas as nossas lágrimas parecem estancadas, ainda sabe fazer-nos chorar. Fora de nós? Em nós, para melhor dizer, mas oculta a nossos próprios olhares, num esquecimento mais ou menos prolongado. Graças tão-somente a esse olvido é que podemos de tempos a tempos reencontrar o ser que fomos, colocarmo-nos perante as coisas como o estava aquele ser, sofrer de novo porque não somos mais nós, mas ele, e porque ele amava o que nos é agora indiferente."

Trecho 5
"Ao mau costume de falar de si mesmo e dos próprios defeitos, cumpre acrescentar, como formando bloco com o mesmo, esse outro hábito de denunciar nos caracteres alheios defeitos análogos aos nossos. E constantemente estamos a falar nos referidos defeitos, como se fora uma espécie de rodeio para falar em nós mesmos, em que se juntam o prazer de confessar e de absolvermo-nos."

Trecho 6
"A sabedoria não se transmite, é preciso que a gente mesmo a descubra depois de uma caminhada que ninguém nos pode evitar, porque a sabedoria é uma maneira de ver as coisas."

PROUST, Marcel. À Sombra das Raparigas em Flor. Tradução Mário Quintana. 3ª edição rev. São Paulo: Globo, 2006. 669 p.
Nota: 10/10
*Releitura

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

O Conto da Aia - Margaret Atwood

Em O Conto da Aia, Margaret Atwood nos apresenta uma sociedade regida pelo fundamentalismo religioso, em que as mulheres, divididas em castas, são obrigadas a cumprir à risca funções pré-estabelecidas. Inúmeras referências a histórias infantis vão reforçando o tom de fábula (de algo puramente inventado, irreal) da narrativa – que, conforme descobrimos no epílogo do livro, é do que vão suspeitar cerca de dois séculos depois. Entre os temas abordados estão a condição da mulher, as formas de opressão, a perda da identidade e os perigos de se encarar o passado de forma abstrata, como algo distante e sem qualquer relação com o presente, ou mesmo, com o futuro.

Trecho 1
"Conto, em vez de escrever, porque não tenho nada com que escrever e, de todo modo, escrever é proibido. Mas se for uma história, mesmo em minha cabeça, devo estar contando-a a alguém. Você não conta uma história apenas para si mesma. Sempre existe alguma outra pessoa.
Mesmo quando não há ninguém.

Uma história é como uma carta. Caro Você, direi. Apenas você, sem nome. Acrescentar um nome acrescenta você ao mundo real, que é mais arriscado, mais perigoso: quem sabe quais serão as probabilidades lá fora de sobrevivência, da sua sobrevivência? Eu direi você, você, como uma velha canção de amor. Você pode ser mais de uma pessoa.
Você pode significar milhares."

Trecho 2
"Li a respeito disso em Introdução à psicologia; isso e o capítulo sobre ratos enjaulados que escolhiam por vontade própria tomar choques elétricos para ter alguma coisa que fazer. E o capítulo sobre pombos, treinados para bicar um botão que fazia aparecer um grão de milho. Três grupos deles: os do primeiro ganhavam um grão por bicada, os do segundo um grão uma bicada sim uma não, os do terceiro ganhavam aleatoriamente. Quando o homem encarregado cortou o fornecimento de grãos, o primeiro grupo desistiu muito depressa, o segundo grupo um pouco mais tarde. O terceiro grupo nunca desistiu. Eles bicaram até morrer, em vez de desistir. Quem saberia o que funcionava?"

Trecho 3
"Nenhuma esperança. Sei onde estou, e quem sou, e que dia é hoje. Esses são os testes, e estou sã. A sanidade é um bem valioso; eu a amealho e guardo escondida, como as pessoas antigamente amealhavam e escondiam dinheiro. Economizo sanidade, de maneira a vir a ter o suficiente, quando chegar a hora."

Trecho 4
"Há algo de poderoso em sussurrar obscenidades sobre aqueles que estão no poder. Há algo de delicioso nisso, algo de malicioso, secreto, proibido, estimulante. É como uma espécie de feitiço. Isso os esvazia, os reduz ao denominador comum onde se pode lidar com eles."

Trecho 5 (do epílogo)
"Como todos os historiadores sabem, o passado é uma enorme escuridão, e repleto de ecos. Vozes podem nos alcançar saídas dele; mas o que dizem é imbuído da obscuridade da matriz da qual elas vêm; e, por mais que tentemos, nem sempre podemos decifrá-las precisamente à luz mais clara de nosso próprio tempo."

ATWOOD, Margaret. O conto da aia. Tradução Ana Deiró. Rio de Janeiro: Rocco, 2006. 367 p.
Nota: 9,0/10

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Melhores Leituras de 2009

1. Angústia, Graciliano Ramos. Um mergulho no desespero. O último capítulo é memorável. Aqui, me parece que GR não foi só um grande escritor: foi genial.
2. A Fera na Selva, Henry James. Personagens fascinantes, numa novela fascinante que, com a ambiguidade típica de James, conduz o leitor para a descoberta, "tarde mais", de tudo o que se deixou de viver.
3. O Som e a Fúria, William Faulkner. Uma história contada por 4 vozes, sendo que cada uma ilumina os fatos apresentados pela outra. A ousadia de Faulkner se mostra, por exemplo, em abrir o livro com um narrador deficiente mental, para quem presente e passado são a mesma coisa.
4. Ulisses, James Joyce. Uma experiência única. A variedade de estilos e de técnicas empregados por Joyce impressionam. Destaque para o bom humor do autor - me peguei dando gargalhadas em certos momentos.
5. Esperando Godot, Samuel Becket. A espera, o vazio, a falta de sentido. Dois atos comicamente trágicos.
6. Esaú e Jacó, Machado de Assis. Ideologias disfarçando a motivação central das disputas: a luta pelo simples prazer da luta. Talvez, o narrador mais intrigante de toda a ficção machadiana.
7. Memorial de Aires, Machado de Assis. Uma história aparentemente simples que permite desdobramentos incríveis se questionarmos os interesses dos personagens.
8. Machado de Assis: Ficção e História, John Gledson. Leitura indispensável para os fãs do Bruxo. Revela novas - e insuspeitadas - camadas de sentido em suas obras.
9. Corpo de Baile, Guimarães Rosa. Se já admirava G. Rosa devido a Sagarana, agora virou um caso de "encantamento". Das sete novelas, minhas favoritas são "Campo Geral", "O Recado do Morro" e "Buriti".
10. Os Vestígios do Dia, Kazuo Ishiguro. A meu ver, uma releitura bem-sucedida de A Fera na Selva. Ishiguro volta seu foco para aqueles que, almejando o sucesso profissional, não se permitem amar.

E vocês: quais foram suas melhores leituras?

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Machado de Assis: Ficção e História - John Gledson

John Gledson, crítico inglês, propõe uma das leituras mais interessantes que já encontrei da obra machadiana. Para ele, a ficção da fase realista pode ser interpretada como uma análise crítica da história brasileira no século XIX – análise que levou Machado a encontrar soluções inusitadas na construção de seus contos, romances e crônicas. Ao confrontar as duas versões de Quincas Borba, por exemplo, Gledson constata que foi a partir deste livro que a agressão do Bruxo ao leitor se tornou estrutural, apresentando uma história focada, fácil de apreender, e outra deliberadamente oculta, que desafia nosso poder de percepção. Um dos capítulos mais inquietantes deste volume é o dedicado a Memorial de Aires: o autor sugere que o caso de Tristão e Fidélia tenha começado muito antes do que se imagina, e que toda a narrativa, em vez de um louvor “à simpatia e à bondade humana”, seja um novo estudo da traição.

Trecho 1 (sobre Casa Velha)
"Claramente, no entanto, o que fascina Machado - em contraste, como podemos imaginar, com o seu padre-narrador - não são as personalidades históricas, mas a escala mais ampla na qual a política realmente se torna História."

Trecho 2 (sobre a série de crônicas Bons dias!, de 1888 / 1889)
"[Ele rejeitava o] ingênuo entusiasmo abolicionista. Essas emoções, como Machado, com seu habitual ceticismo, sabia muito bem, frequentemente dão mais satisfação ao dono das emoções do que à pessoa para quem supostamente se dirigem."

Trecho 3 (sobre uma das crônicas da série Bons dias!)
"Mas ele reserva sua declaração mais violenta para o fim, quando abandona o tom bíblico para contar a história de Bacabal: não apenas alguns senhores de escravos continuam a se comportar como se a lei não existisse, mas as autoridades os apoiam. Durante os anos seguintes, Machado teria um prazer perverso em lembrar incidentes capazes de mostrar que, com a lei ou sem ela, a escravidão não estava extinta. Aparentemente perverso, porque ele tinha razão, claro, pelo menos num sentido. Os efeitos da escravidão eram demasiado profundos para serem "abolidos" por uma lei e, se a euforia pública alimentasse essa ilusão, seria prejudicial."

Trecho 4
"Para concluir um capítulo decididamente especulativo com um tom ainda mais especulativo: talvez esteja nisto uma explicação para a singularidade do lugar que Machado ocupa na História do romance. Enquanto a maioria dos grandes romancistas do século XIX, por mais que manifestem horror à realidade, escrevem, em última instância, com um senso de comunidade e nacionalidade, ele jamais assumiu a existência de ambas. Os russos, com os quais ele é muitas vezes comparado - e creio que perigosamente - têm este senso; e ele inclui servos e párias. Por outro lado, atinge não apenas o assunto, mas a maneira como eles escrevem e, inclusive, sua atitude para com os leitores. Esse senso de comunidade é profundamente destruído pela contínua, repetida traição, no caso de Machado, e simplesmente não existe em seus romances; foi talvez isto que lhe causou problemas de construção do enredo (principalmente em Quincas Borba) e que torna tão necessária para seus significados (muitas vezes secretos) a conexão alegórica entre os personagens e uma entidade mais ampla. Em Memorial, a explicação do enredo está fora dessa - possível - comunidade, "Em Lixboa, sobre lo mar", oculta dos demais personagens, do narrador, talvez até do autor."

Trecho 5
"Finalizando: uma coisa que não pára nunca de surpreender e de chocar é a ousadia do experimentalismo machadiano, num mundo que ainda não inventara o modernismo. Ele pode ter sido conservador nas suas leituras: porém, ao pensar e ao escrever era outra coisa. (...) o extraordinário, o realmente ousado, que Machado fez, entre outras coisas, no processar da célebre "crise dos quarenta anos", foi "assumir" a incerteza histórica que é, podemos concordar, uma herança brasileira, e que, diria eu, ele transformou numa espécie de liberdade."

GLEDSON, John. Machado de Assis: ficção e história. Tradução Sônia Coutinho. 2ª ed. revista e ampliada. São Paulo: Paz e Terra, 2003.
338 p.
Nota: 9,5/10

domingo, 27 de dezembro de 2009

Casa Velha - Machado de Assis

Este pequeno – e pouco conhecido – romance foi publicado pela primeira vez numa revista carioca entre 1885 e 1886. Após um período de esquecimento, foi resgatado e lançado em livro pela estudiosa Lúcia Miguel Pereira, em meados da década de 1940. O enredo, tipicamente romântico (um amor proibido devido à distinção de classes e à suspeita de incesto), é narrado por um velho padre que, sem querer, acaba lhe conferindo um aspecto realista, uma vez que plasma, num relato trivial, toda uma configuração histórica do Brasil.

Trecho 1
"Todas as carreiras são boas, exceto a do pecado. Também eu algum tempo, andei com fumaças de entrar na Câmara; mas não tinha recursos nem alianças políticas; desisti do emprego. E assim foi bom. Sou antes especulativo que ativo; gosto de escrever política, não de fazer política. Cada qual como Deus o fez."

Trecho 2
"O sineiro era um preto velho e doudo. Não fazia mais que tocar o sino da capela, para a missa, aos domingos. O resto do tempo vivia calado ou resmungando. Ninguém lhe falava, embora fosse manso. Lalau era a única, entre todos, parentes, agregados ou fâmulos, que ia conversar com ele, interrogá-lo, escutá-lo, pedir-lhe histórias. E ele contava-lhe histórias — muito compridas, sem sentido algumas, outras quase sem nexo, raminiscências vagas e embrulhadas, ou sugestões do delírio. (...) Com a razão, perdera a convivência dos mais. Vivia entregue aos pensamentos solitários, mergulhado na inconsciência e na solidão. A moça representava aos olhos dele alguma cousa mais do que uma simples criatura, era a sociedade humana, e uma sombra de sombra da consciência antiga."

Trecho 3
"Estava irritado, dava-me ímpeto de quebrar alguma cousa. Sentei-me, levantei-me, fui à janela e acabei passeando ao longo da sala, com os pensamentos dispersos e confusos. Os livros, arranjados nas estantes, olhavam para mim, e talvez comentavam a minha agitação com palavras de remoque, dizendo uns aos outros que eles eram a paz e a vida, e que eu padecia agora as consequências de os haver deixado, para entrar no conflito das cousas."

Trecho 4
"Assim vai a vida humana: um nada basta para complicar tudo."

MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Casa velha. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2004. 112 p.
Nota: 8,5/10

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Memorial de Aires - Machado de Assis

Último romance de Machado de Assis, o “Memorial” apresenta parte dos diários escritos pelo conselheiro Aires – no caso, os referentes a 1888 e 1889. A história gira em torno da viúva Fidélia que, após dois anos de luto, decide se casar com Tristão, moço recém-chegado da Europa. Ambos são tratados como filhos pelo simpático casal Aguiar, que ressente a falta de filhos naturais. Tudo pareceria simples e pueril, não fossem certas desconfianças introduzidas sutilmente no texto e que põem em xeque as motivações de cada personagem, inclusive as do narrador: corresponde, de fato, o comportamento de Fidélia a seu nome? Foi mesmo casual o retorno de Tristão ao Brasil? É tão desinteressado quanto aparenta o afeto do casal Aguiar? E Aires: estaria a paixão por Fidélia comprometendo sua visão dos fatos?

Trecho 1 (17 de maio de 1888)
"Vou ficar em casa uns quatro ou cinco dias, não para descansar, porque eu não faço nada, mas para não ver nem ouvir ninguém, a não ser o meu criado José. Este mesmo, se cumprir, mandá-lo-ei à Tijuca, a ver se eu lá estou. Já acho mais quem me aborreça do que quem me agrade, e creio que esta proporção não é obra dos outros, e só minha exclusivamente. Velhice esfalfa."

Trecho 2 (21 de maio de 1888)
"Um homem que começa mentindo disfarçada ou descaradamente acaba muita vez exato e sincero."

Trecho 3 (17 de agosto de 1888)
" (...) uma cousa é citar versos, outra é crer neles. Eu li há pouco um soneto verdadeiramente pio de um rapaz sem religião, mas necessitado de agradar a um tio religioso e abastado."

Trecho 4 (31 de agosto de 1888)
"A música foi sempre uma das minhas inclinações, e, se não fosse temer o poético e acaso o patético, diria que é hoje uma das saudades. Se a tivesse aprendido, tocaria agora ou comporia, quem sabe? Não me quis dar a ela, por causa do ofício diplomático, e foi um erro. A diplomacia que exerci em minha vida era antes função decorativa que outra cousa; não fiz tratados de comércio nem de limites, não celebrei alianças de guerra; podia acomodar-me às melodias de sala ou de gabinete. Agora vivo do que ouço aos outros."

Trecho 5 (6 de fevereiro de 1889)
"Não há como um grande segredo para ser divulgado depressa."

Trecho 6 (22 de fevereiro de 1889 - Machado num momento visionário)
"Eu gosto de ver impressas as notícias particulares, é bom uso, faz da vida de cada um ocupação de todos. Já as tenho visto assim, e não só impressas, mas até gravadas. Tempo há de vir em que a fotografia entrará no quarto dos moribundos para lhes fixar os últimos instantes; e se ocorrer maior intimidade entrará também."

MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Memorial de Aires. In: Esaú e Jacó; Memorial de Aires. São Paulo: Abril Cultural, 1984. p. 225-384.
Nota: 9,5/10

domingo, 20 de dezembro de 2009

Esaú e Jacó - Machado de Assis

De que trata este livro? Aparentemente, das desavenças entre os gêmeos Pedro e Paulo, ambos apaixonados pela jovem Flora. Será mesmo? O que dizer, por exemplo, da figura do narrador? Apesar da advertência feita no prólogo, sobre a obra ter sido escrita pelo conselheiro Aires, este cria um jogo de espelhos que dissimula sua presença na ordenação dos fatos. Por quê? Por que, aliás, o conselheiro nomeia o caderno com essa narrativa de “Último”? Meu palpite: porque não seria de bom tom um homem de sessenta anos demonstrar abertamente seu interesse por uma jovem de quinze, Flora – o último amor. Além disso, é curioso notar que o conflito evocado no título tanto remete aos gêmeos quanto às disputas políticas no Brasil do século XIX. Logo, serão os eventos históricos apenas um pano de fundo? Não é à toa que MA foi chamado de Bruxo do Cosme Velho: ele é um mestre em criar ilusões, em desviar a atenção do leitor, em esconder um mundo atrás de uma moeda.

Trecho 1
"O tempo é um tecido invisível em que se pode bordar tudo, uma flor, um pássaro, uma dama, um castelo, um túmulo. Também se pode bordar nada. Nada em cima de invisível é a mais sutil obra deste mundo, e acaso do outro".

Trecho 2 ( Isso não lembra Clarice Lispector?)
"Afora essas saudades do poder, D. Cláudia era uma criatura feliz. A viveza das palavras e das maneiras, os olhos que pareciam não ver nada à força de não pararem nunca, e o sorriso benévolo, e a admiração constante, tudo nela era ajustado a curar as melancolias alheias. Quando beijava ou mirava as amigas era como se as quisesse comer vivas, comer de amor, não de ódio, metê-las em si, muito em si, no mais fundo de si."

Trecho 3
"O leitor atento, verdadeiramente ruminante, tem quatro estômagos no cérebro, e por eles faz passar e repassar os atos e os fatos, até que deduz a verdade, que estava, ou parecia estar escondida".

Trecho 4 (Aires passeando com os gêmeos)
"Foram dali a um restaurant. Aires disse-lhes que, antigamente, em rapaz, acabava a noite com amigos da mesma idade. Era o tempo de Offenbach e da opereta. Contou anedotas, disse as peças, descreveu as damas e os partidos, quase deu por si repetindo um trecho, música e palavras. Pedro e Paulo ouviam com atenção, mas não sentiam nada do que espertava os ecos da alma do diplomata. Ao contrário, tinham vontade de rir. Que lhes importava a notícia de um velho café da Rua Uruguaiana, trocado depois em teatro, agora em nada, uma gente que viveu e brilhou, passou e acabou antes que eles viessem ao mundo? O mundo começou vinte anos antes daquela noite, e não acabaria mais, como um viveiro de moços eternos que era."

Trecho 5
"Contadas todas as horas de agonia que tem havido no mundo, quantos séculos farão? Desses terão sido tenebrosos alguns, outros melancólicos, muitos desesperados, raros enfadonhos. Enfim, a morte chega, por muito que se demore, e arranca a pessoa ao pranto ou ao silêncio."

MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Esaú e Jacó. In: Esaú e Jacó; Memorial de Aires. São Paulo: Abril Cultural, 1984. p. 7-223.
Nota: 9,5/10