Achei Os Maias um romance primoroso. Publicado em 1888, divide-se em duas partes principais: na primeira, temos uma visão panorâmica da família, dos amigos e da sociedade em que vive Carlos Eduardo da Maia; na segunda, o olhar do narrador fecha-se sobre o relacionamento incestuoso de Carlos com Maria Eduarda (sendo que, a princípio, nenhum dos dois sabe que são irmãos). Para contar essa história, Eça se apropria da estrutura da tragédia grega: utiliza desde prenúncios místicos no começo do livro – num tom satírico – até uma escolha errada que conduz à revelação do mal que sutilmente contaminou a vida dos personagens. Destaque para João da Ega, melhor amigo de Carlos, que atua como um Mefistófeles caricato e contraditório.Trecho 1
"Carlos, no entanto, fumando preguiçosamente, continuava a falar na Gouvarinho e nessa brusca saciedade que o invadira, mal trocara com ela três palavras numa sala. E não era a primeira vez que tinha destes falsos arranques de desejo, vindo quase com as formas de amor, ameaçando absorver, pelo menos por algum tempo, todo o seu ser, e resolvendo-se em tédio, em "seca". Eram como os fogachos de pólvora sobre uma pedra; uma fagulha ateia−os, num momento tornam-se chama veemente que parece que vai consumir o Universo, e por fim fazem apenas um rastro negro que suja a pedra. Seria o seu um desses corações de fraco, moles e flácidos, que não podem conservar um sentimento, o deixam fugir, escoar-se pelas malhas lassas do tecido reles?"
Trecho 2
Trecho 2
"O dia famoso da soirée dos Cohens, ao fim dessa semana tão luminosa e tão doce, amanheceu enevoado e triste. Carlos, abrindo cedo a janela sobre o jardim, vira um céu baixo que pesava como se fosse feito de algodão em rama enxovalhado: o arvoredo tinha um tom arrepiado e úmido; ao longe o rio estava turvo, e no ar mole errava um hálito morno de sudoeste. Decidira não sair – e desde as nove horas, sentado à banca, embrulhado no seu vasto robe-de-chambre de veludo azul, que lhe dava o belo ar de um príncipe artista da Renascença, tentava trabalhar: mas, apesar de duas chávenas de café, de cigarettes sem fim, o cérebro, como o céu fora, conservava-se-lhe nessa manhã afogado em névoas. Tinha destes dias terríveis; julgava-se então "uma besta"; e a quantidade de folhas de papel, dilaceradas, amarfanhadas, que lhe juncavam o tapete aos pés, davam−lhe a sensação de ser todo ele uma ruína."
Trecho 3
"Minha cara amiga, se fosse possível que a nossa afeição se passasse fora do mundo, distante de todos os olhares, ao abrigo de todas as suspeitas, seria delicioso... Mas não pode ser!... Alguém tem de saber sempre alguma coisa; quando não seja senão o cocheiro que me leva todos os dias a sua casa, quando não seja senão o criado que me abre todos os dias a sua porta... Há sempre alguém que surpreende o encontro de dois olhares; há sempre alguém que adivinha donde se vem a certas horas... Os deuses antigamente arranjavam essas coisas melhor, tinham uma nuvem que os tornava invisíveis. Nós não somos deuses, infelizmente..."
Trecho 4
"– Essa é outra! - gritou Ega atirando os braços ao ar. - É extraordinário! Neste abençoado país todos os políticos têm imenso talento. A oposição confessa sempre que os ministros, que ela cobre de injúrias, têm, à parte os disparates que fazem, um talento de primeira ordem! Por outro lado a maioria admite que a oposição, a quem ela constantemente recrimina pelos disparates que fez, está cheia de robustíssimos talentos! De resto todo o mundo concorda que o país é uma choldra. E resulta portanto este fato supracômico: um país governado com imenso talento, que é de todos na Europa, segundo o consenso unânime, o mais estupidamente governado! Eu proponho isto, a ver: que, como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os imbecis!"
Em 2001, esse livro foi adaptado numa minissérie de TV. Curiosamente, um dos momentos mais geniais dessa adaptação foi inventado especificamente para ela: o retorno de Maria Monforte, mãe de Carlos e Maria Eduarda. Na cena abaixo, Monforte vai à casa do sogro, Afonso da Maia, conhecer o filho que abandonou quando criança. Lá, descobre que ele e o amante da filha (que conhecera há pouco) são a mesma pessoa - vejam que interpretação do Walmor Chagas e da Marília Pêra (sem falar na trilha sonora: Mozart e Wagner):
Trecho 3
"Minha cara amiga, se fosse possível que a nossa afeição se passasse fora do mundo, distante de todos os olhares, ao abrigo de todas as suspeitas, seria delicioso... Mas não pode ser!... Alguém tem de saber sempre alguma coisa; quando não seja senão o cocheiro que me leva todos os dias a sua casa, quando não seja senão o criado que me abre todos os dias a sua porta... Há sempre alguém que surpreende o encontro de dois olhares; há sempre alguém que adivinha donde se vem a certas horas... Os deuses antigamente arranjavam essas coisas melhor, tinham uma nuvem que os tornava invisíveis. Nós não somos deuses, infelizmente..."
Trecho 4
"– Essa é outra! - gritou Ega atirando os braços ao ar. - É extraordinário! Neste abençoado país todos os políticos têm imenso talento. A oposição confessa sempre que os ministros, que ela cobre de injúrias, têm, à parte os disparates que fazem, um talento de primeira ordem! Por outro lado a maioria admite que a oposição, a quem ela constantemente recrimina pelos disparates que fez, está cheia de robustíssimos talentos! De resto todo o mundo concorda que o país é uma choldra. E resulta portanto este fato supracômico: um país governado com imenso talento, que é de todos na Europa, segundo o consenso unânime, o mais estupidamente governado! Eu proponho isto, a ver: que, como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os imbecis!"
Em 2001, esse livro foi adaptado numa minissérie de TV. Curiosamente, um dos momentos mais geniais dessa adaptação foi inventado especificamente para ela: o retorno de Maria Monforte, mãe de Carlos e Maria Eduarda. Na cena abaixo, Monforte vai à casa do sogro, Afonso da Maia, conhecer o filho que abandonou quando criança. Lá, descobre que ele e o amante da filha (que conhecera há pouco) são a mesma pessoa - vejam que interpretação do Walmor Chagas e da Marília Pêra (sem falar na trilha sonora: Mozart e Wagner):
QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. São Paulo: Nova Alexandria, 2000.
494 p.
Nota: 9,5/10








