segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O Mercador de Veneza - Shakespeare

Antônio, mercador em Veneza, faz um trato com o judeu Shylock: toma-lhe emprestado três mil ducados sob a condição de que, caso não consiga saldar a dívida, entregará uma libra de carne de seu próprio corpo. Como é possível imaginar, reveses impedem o pagamento, levando seu credor a acionar a justiça. Salta à vista a parcialidade com que a figura do judeu vai sendo construída nas primeiras cenas: uma alma perversa, impiedosa, vingativa, ávida pelo dinheiro, o "diabo encarnado". Com que objetivo o autor faz isso? Partilharia ele dos preconceitos de sua época? Pode ser que sim, pode ser que não. O fato é que, no decorrer da peça, a maldade caricatural de Shylock acaba revelando ao leitor a incoerência no discurso dos outros personagens que, por serem (ou por se rotularem) cristãos, têm-se na mais alta consideração.

Trecho 1
"Antônio: Na verdade, ignoro a razão de minha tristeza. Ela me obseda; dizeis que ela também vos obseda; porém, como eu apanhei, nela tropecei ou a encontrei, de que matéria é feita, de onde nasceu estou ainda para saber. Ela me torna tão estúpido que tenho grande trabalho para reconhecer-me."

Trecho 2
"Shylock: Vós me chamastes de infiel, cão assassino e cuspistes em meu gabão de judeu; tudo isto, pelo uso que fiz do que me pertence. Muito bem; parece que hoje necessitais de meu auxílio. Avante, pois! Vindes a mim e me dizeis: 'Shylock, teríamos necessidade de dinheiro'. Dizeis isto, vós que expelistes vossa saliva sobre minha barba e que me expulsastes a pontapés, como enxotaríeis de vossa porta um cão vagabundo. Pedis dinheiro. Que devo dizer-vos? Não deveria responder: 'Um cão tem dinheiro? É possível que um cão tinhoso vos empreste três mil ducados?' Ou, então, devo inclinar-me profundamente e, com um tom servil, prendendo minha respiração num murmúrio de humildade, dizer-vos isto: 'Arrogante senhor, cuspistes sobre mim na última quarta-feira; vós me expulsastes a pontapés em tal dia; noutra ocasião me chamastes de cão; por todas essas amabilidades, devo emprestar-vos tanto dinheiro?'"

Trecho 3
"Shylock: Então, um judeu não possui olhos? Um judeu não possui mãos, órgãos, dimensões, sentidos, afeições, paixões? Não é alimentado pelos mesmo alimentos, ferido com as mesmas armas, sujeito às mesmas doenças, curado pelos mesmos meios, aquecido e esfriado pelo mesmo verão e pelo mesmo inverno que um cristão? Se nos picais, não sangramos? Se nos fazeis cócegas, não rimos? Se nos envenenais, não morremos? E se vós nos ultrajais, não nos vingamos? Se somos como vós quanto ao resto, somos semelhantes a vós também nisso. Quando um cristão é ultrajado por um judeu, onde coloca ele a humildade? Na vingança. Quando um judeu é ultrajado por um cristão, de acordo com o exemplo cristão, onde deve ele colocar a paciência? Ora essa, na vingança! A perfídia que me ensinais, eu a colocarei em prática e ficarei na desgraça, se não superar o ensino que me destes".

Trecho 4
"Shylock: Que sentença devo temer, não havendo feito mal algum? Tendes entre vós numerosos escravos que comprastes e que empregais, como se fossem burros, vossos cães e vossas mulas, em trabalhos abjetos e servis, porque vós os comprastes. Posso dizer-vos: dai-lhes liberdade, casai-os com vossas herdeiras? Por que estão suando debaixo de tanto peso? Por que as camas deles não são tão macias quanto as vossas? Por que não lhes servis os mesmos alimentos que os vossos? Vós me respondereis: 'Os escravos nos pertencem'. Muito bem, do mesmo modo eu respondo: 'Esta libra de carne que reclamo, custou-me muito dinheiro, é minha e eu a conseguirei. Se ela me for negada, anátema contra vossa lei! Não há força nos decretos de Veneza! Quero justiça. Será que a conseguirei? Respondei."

SHAKESPEARE, William. O mercador de Veneza. In: Comédias e Sonetos. Tradução F. Carlos de Almeida Cunha Medeiros; Oscar Mendes. São Paulo: Abril Cultural, 1981. p. 279-367.
Nota: 8,5/10

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Sermões do Padre Vieira

Eis aqui uma grata surpresa: não pensei que gostaria tanto dos sermões de Vieira. Estão presentes neste volume o Sermão da Sexagésima, um genial tratado sobre a arte de pregar; o Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda, acerca das invasões ocorridas no nordeste brasileiro; e o Sermão do Bom Ladrão, que critica ferozmente aqueles que se utilizam de cargos públicos para enriquecer (qualquer semelhança com a atualidade não é mera coincidência...). As leituras que Vieira faz do texto bíblico, relacionando passagens de diferentes livros e aplicando-as a seu momento histórico, são deveras interessantes.

Trecho 1
"Entre o semeador e o que semeia há muita diferença. Uma coisa é o soldado e outra coisa o que peleja; uma coisa é o governador e outra o que governa. Da mesma maneira, uma coisa é o semeador e outra o que semeia; uma coisa é o pregador e outra o que prega. O semeador e o pregador é nome; o que semeia e o que prega é ação; e as ações são as que dão o ser ao pregador. Ter o nome de pregador, ou ser pregador de nome, não importa nada; as ações, a vida, o exemplo, as obras são as que convertem o Mundo."
in Sermão da Sexagésima

Trecho 2
"Aprendamos do céu o estilo da disposição, e também o das palavras. As estrelas são muito distintas e muito claras. Assim há-de ser o estilo da pregação; muito distinto e muito claro. E nem por isso temais que pareça o estilo baixo; as estrelas são muito distintas e muito claras, e altíssimas. O estilo pode ser muito claro e muito alto; tão claro que o entendam os que não sabem e tão alto que tenham muito que entender os que sabem."
in Sermão da Sexagésima

Trecho 3
"A pregação que frutifica, a pregação que aproveita, não é aquela que dá gosto ao ouvinte, é aquela que lhe dá pena. Quando o ouvinte a cada palavra do pregador treme; quando cada palavra do pregador é um torcedor¹ para o coração do ouvinte; quando o ouvinte vai do sermão para casa confuso e atônito, sem saber parte de si, então é a preparação qual convém, então se pode esperar que faça fruto."
in Sermão da Sexagésima

Trecho 4
"Finjamos, pois (o que até fingido e imaginado faz horror); finjamos que vem a Bahia e o resto do Brasil a mãos dos holandeses; que é o que há de suceder em tal caso? – Entrarão por esta cidade com fúria de vencedores e de hereges; não perdoarão a estado, a sexo nem a idade; com os fios dos mesmos alfanjes² medirão a todos; chorarão as mulheres, vendo que se não guarda decoro à sua modéstia; chorarão os velhos, vendo que se não guarda respeito a suas cãs; chorarão os nobres, vendo que se não guarda cortesia à sua qualidade; chorarão os religiosos e veneráveis sacerdotes, vendo que até as coroas sagradas os não defendem; chorarão finalmente todos, e entre todos mais lastimosamente os inocentes, porque nem a esses perdoará (como em outras ocasiões não perdoou), a desumanidade herética."
in Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda

Trecho 5
"É o que disse o outro pirata a Alexandre Magno. Navegava Alexandre em uma poderosa armada pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia, e como fosse trazido à sua presença um pirata que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício; porém, ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim. — Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? — Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres."
in Sermão do Bom Ladrão

1. Torcedor: um instrumento de tortura.
2. Alfanje: sabre de lâmina curta e larga.


VIEIRA, Padre Antônio. Sermões. Porto Alegre: L&PM, 2009. 143 p.
Nota: 8,5/10

sábado, 7 de novembro de 2009

A Raiz da Alma - Heloisa Vilhena de Araújo

Nesta coletânea de ensaios sobre Corpo de Baile (de Guimarães Rosa), a autora sugere a existência de uma ligação entre os sete contos do livro e a simbologia mítica dos planetas da Antiguidade: Sol, Lua, Marte, Vênus, Júpiter, Saturno e Mercúrio. Em linhas gerais, a ideia é interessante. Porém, a fim de provar sua tese, a autora dá tanto espaço à filosofia e à mitologia greco-romana que quase deixa de lado o enredo das histórias que se propôs analisar. Aliás, aqueles que, como eu, não tem muita intimidade com filosofia, apanham um “poucadinho” (como diz Miguilim) na leitura.


Trecho 1
"Para [Plotino], o universo está cheio de sinais - de letras - e, como todos os acontecimentos são coordenados e dependem uns dos outros, é sábio, segundo ele, aquele que conhece uma coisa a partir de outra e que chega à visão do todo a partir da parte. Em Corpo de Baile, também, é preciso sempre tentar ver o todo a partir de cada conto."

Trecho 2 (sobre "Dão-Lalalão")
"Para Soropita, o perigo de se ver preso nas sombras toma corpo no preto Iládio, figuração do escuro, do mal, da doença, da mentira, do sujo, do negativo, da morte (...)
A raiva que sente do preto é a raiva que sente de si mesmo, de seu próprio desejo, de sua própria vida; é sinal de culpa, de medo, de tristeza, de morte. Doralda, entregando-se aos pretos, e o Iládio - imaginados - são sombras, não são reais. O real é ele mesmo, Soropita. Humano, efêmero, mortal, preto."

Trecho 3
"Em carta de 4 de dezembro de 1963 a seu tradutor italiano, Guimarães Rosa diz que sua arte - seus livros - são uma "tradução", uma cópia, de um original - de um modelo - existente no mundo astral, no plano das ideias. Não poderia haver indicação mais clara de uma orientação platônica de seu método de escrever. Guimarães Rosa estaria, neste caso, imitando - mimesis - o modelo eterno, a Ideia. Sua arte - mimesis - é imitação do eterno. É tradução sensível do inteligível."

ARAÚJO, Heloisa Vilhena de. A Raiz da Alma. São Paulo: Edusp, 1992. 178 p.
Nota: 7,0/10

sábado, 31 de outubro de 2009

Claro Enigma - Carlos Drummond de Andrade

A epígrafe de Claro Enigma (1951), retirada de Paul Valéry, introduz a mudança de pespectiva entre este Drummond e aquele de A Rosa do Povo: “Les événements m'ennuient” (Os acontecimentos me entediam). O poeta agora considera sua antiga postura como “o sonho de um sonho”, mera ilusão no “vale das sombras” – imagem bíblica recorrente no livro. Chama a atenção o uso extensivo de estruturas poéticas clássicas, algo incomum nas obras anteriores do autor. É aqui que aparece A Máquina do Mundo, considerado por muitos críticos o melhor poema brasileiro de todos os tempos.

Dissolução

Escurece, e não me seduz
tatear sequer uma lâmpada.
Pois que aprouve ao dia findar,
aceito a noite.

E com ela aceito que brote
uma ordem outra de seres
e coisas não figuradas.
Braços cruzados.

Vazio de quanto amávamos,
mais vasto é o céu. Povoações
surgem do vácuo.
Habito alguma?

E nem destaco minha pele
da confluente escuridão.
Um fim unânime concentra-se
e pousa no ar. Hesitando.

E aquele agressivo espírito
que o dia carreia consigo
já não oprime. Assim a paz,
destroçada.

Vai durar mil anos, ou
extinguir-se na cor do galo?
Esta rosa é definitiva,
ainda que pobre.

Imaginação, falsa demente,
já te desprezo. E tu, palavra.
No mundo, perene trânsito,
calamo-nos.
E sem alma, corpo, és suave.
____________________________________

Oficina Irritada

Eu quero compor um soneto duro
como poeta algum ousara escrever.
Eu quero pintar um soneto escuro,
seco, abafado, difícil de ler.

Quero que meu soneto, no futuro,
não desperte em ninguém nenhum prazer.
E que, no seu maligno ar imaturo,
ao mesmo tempo saiba ser, não ser.

Esse meu verbo antipático e impuro
há de pungir, há de fazer sofrer,
tendão de Vênus sob o pedicuro.

Ninguém o lembrará: tiro no muro,
cão mijando no caos, enquanto Arcturo,
claro enigma, se deixa surpreender.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Claro Enigma. Rio de Janeiro: Record, 1987. 127 p.
Nota: 9,0/10

domingo, 25 de outubro de 2009

Meridiano de Sangue - Cormac McCarthy

Leitura incômoda, difícil de terminar – assim poderia classificar minha experiência com Meridiano de Sangue. Em linhas gerais, a obra remonta à conquista do oeste norte-americano no século XIX e à violência sem limites entre brancos e nativos. Um personagem que se destaca é o diabólico Juiz Holden, considerado por Harold Bloom como um “teórico da guerra eterna”. Embora o livro tenha um quê grandioso (que se mostra principalmente nas descrições da paisagem), a sequência aterradora de massacres, relatados com a maior crueza possível, quase me fizeram desistir dele.

Trecho 1 (fala do Juiz Holden)
"A verdade sobre este mundo, disse, é que tudo é possível. Não o houvessem visto todos vocês desde o nascimento e desse modo o dessecado de toda sua estranheza ele se lhes revelaria tal como é, um truque com cartola num espetáculo mambembe, um sonho febril, um transe superpovoado de quimeras sem análogo nem precedentes, um parque de diversões itinerante, uma feira ambulante cujo destino último após incontáveis tendas erguidas em incontáveis terrenos barrentos é inexprimível e calamitoso além de todo entendimento."

Trecho 2 (fala do Juiz Holden)
"Os homens nasceram para os jogos. Nada mais. Qualquer criança sabe que brincar é mais nobre que trabalhar. Sabe também que o valor ou mérito de um jogo não é inerente ao jogo em si mas antes ao valor do que está em risco. Jogos de azar exigem uma aposta para significar alguma coisa. Jogos esportivos envolvem a habilidade e força dos oponentes e a humilhação da derrota e o orgulho da vitória são em si mesmos aposta suficiente pois estão indissociavelmente ligados ao valor dos envolvidos e os definem. Mas seja qual for a prova, se de sorte ou valor, todo jogo aspira à condição de guerra pois nesse caso o que se aposta suprime tudo, jogo, jogadores, tudo."

Trecho 3 (fala do Juiz Holden)
"Essa é a natureza da guerra, cuja aposta é ao mesmo tempo o jogo e a autoridade e a justificação. Vista dessa forma a guerra é a forma mais legítima de divinação. Significa por à prova a vontade de um indivíduo e a vontade de outro no contexto dessa vontade mais ampla que, ao ligar as deles, é por conseguinte forçada a selecionar. A guerra é o jogo supremo porque a guerra é em última instância um forçar da unidade da existência. A guerra é deus."

Trecho 4 (um dos massacres)
"... perseguindo os saxões sem cavalo e trespassando-os com suas lanças e esmagando-os com suas clavas e pulando de suas montarias com facas e correndo pelo solo com um peculiar trote genuvaro como criaturas impelidas a modos antinaturais de locomoção e arrancando as roupas dos mortos e agarrando-os pelos cabelos e passando suas lâminas em torno do crânio de vivos e mortos igualmente e rasgando e erguendo as perucas sangrentas e retalhando e dilacerando os corpos despidos, arrancando membros, cabeças, eviscerando os estranhos torsos brancos e segurando no ar enormes punhados de tripas, genitais, alguns selvagens tão besuntados de sangue que poderiam ter se espojado sobre ele como cães e alguns que caíram sobre os moribundos e os sodomizaram com gritos agudos para os companheiros."

McCARTHY, Cormac. Meridiano de Sangue. Tradução Cássio de Arantes Leite. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009. 351 p.
Nota: 7,5/10

domingo, 4 de outubro de 2009

A Obra em Negro - Marguerite Yourcenar

Mais uma vez, fiquei encantado com a habilidade de Yourcenar em recriar momentos históricos. Enquanto em Memórias de Adriano somos levados à Roma Imperial do século II, A Obra em Negro nos conduz à Europa do século XVI, marcada pelo domínio espanhol e por disputas religiosas (Reforma, Contra-Reforma, Inquisição). Em meio a esse turbulento período, acompanhamos os questionamentos do protagonista Zenon acerca das crenças de sua época e da existência humana - questionamentos enriquecidos por sua experiência como clérigo, alquimista, médico e filósofo. Destaque para as histórias apresentadas em paralelo à narrativa principal, como a da tragédia ocorrida com os anabatistas reunidos em Münster - entre os quais estava a mãe de Zenon - e a do alfaiate calvinista enforcado por heresia, cuja esposa foi enterrada viva.

Trecho 1
"Este Zenon, que caminhava apressadamente sobre as lajes escorregadias de Bruges, sentia trespassar-lhe, como lhe trespassava as vestes o vento vindo do largo, o fluxo de milhares de seres que uma vez haviam existido naquele ponto da esfera, ou que para ali iriam antes da catástrofe a que chamamos o fim do mundo; esses fantasmas percorriam absortos o corpo do homem que ainda não nascera quando eles estavam vivos, ou que já seria pó quando eles nascessem. Os desconhecidos que pouco antes encontrara na rua, percebidos de relance e logo devolvidos à massa informe do que já passou, engrossavam sem cessar aquele bando de larvas. O tempo, o lugar, a substância perdiam os atributos que para nós constituem suas fronteiras; a forma nada mais era do que a casca espedaçada da substância, enquanto esta definhava num vazio que não era seu contrário; o tempo e a eternidade tornavam-se a mesma coisa, como um veio de água negra que sulca uma vasta extensão de água negra."

Trecho 2
"Não se é tão livre quanto se deseja, quanto se quer, quanto se julga, talvez quanto se vive. Médico, alquimista, artífice, astrólogo, trajava ele, de bom ou de mau grado, o uniforme do seu tempo."

Trecho 3
"Aquelas botas e sandálias que gretavam à beira da cama se haviam movido quando insufladas pela respiração de um boi estendido pela relva, e um porco esfolado grunhia baixinho na gordura com a qual o sapateiro as untara. A morte violenta estava em toda parte, tanto num açougue quanto num patíbulo. Um pato degolado gritava na pena que seria utilizada para grafar sobre velhos pergaminhos ideias que se supunham deveriam de perdurar para sempre."

Trecho 4
"Apesar dos anzóis, das redes e dos cestos, a maioria dos peixes prossegue nas negras profundezas das águas seu roteiro sem vestígios, sem jamais se preocupar com os de sua espécie, que se contorcem ensanguentados no tombadilho de um barco."

Trecho 5
"Cada um de nós é seu único mestre e seu único adepto. A experiência se refaz a cada instante a partir de nada."

YOURCENAR, Marguerite. A obra em negro. Tradução Ivan Junqueira. São Paulo: Círculo do Livro, 1988. 294 p.
Nota: 9,0/10

domingo, 20 de setembro de 2009

Os Vestígios do Dia - Kazuo Ishiguro

Vencedor do Booker Prize de 1989, Os Vestígios do Dia conta a viagem empreendida pelo mordomo Stevens rumo a seu passado. No período de seis dias, ele passa da certeza (ou da quase certeza) de ter sido bem-sucedido em sua carreira, para a constatação de que, na verdade, foi tudo uma ilusão – aspirando ser um grande mordomo, acabou por sufocar seus sentimentos, dedicando toda sua existência aos projetos do ambíguo aristocrata inglês, Lord Darlington. E o pior de tudo: não percebeu (ou não quis perceber) o afeto que a governanta Miss Kenton lhe devotou durante anos. Toda a história é apresentada do ponto de vista de Stevens, cuja narração é marcada por contradições e incertezas – não raro, muito sugestivas.

Trecho 1
"Quantas vezes vemos o mordomo que um dia está na boca de todos como o maior de sua geração mostrar-se, sem sombra de dúvida, exatamente o oposto disso? No entanto, aqueles mesmos empregados que um dia cobriram-no de elogios estarão demasiado ocupados elogiando uma nova figura qualquer e não terão tempo para parar e examinar suas próprias opiniões."

Trecho 2
"Mordomos de baixa qualidade trocam seu ser profissional pelo ser pessoal à menor provocação. Para essas pessoas, ser mordomo é como representar uma pantomima: um pequeno empurrão, um leve tropeço, e a máscara se rompe, revelando o ator por trás dela. Os grandes mordomos são grandes em virtude de sua capacidade de viver ao máximo o seu papel profissional; não são perturbados por acontecimentos externos, por mais surpreendentes, alarmantes ou vexatórios. Usam seu traje profissional como um cavalheiro decente usa seu traje: não deixam que rufiões ou circunstâncias adversas o arranquem deles em público, mas despem-no quando, e só então, o desejam, isso invariavelmente apenas quando estiverem inteiramente a sós."

Trecho 3
"Como já declarei, nunca, em todos esses anos, pensei no assunto dessa forma: porém talvez seja parte da natureza de empreender uma viagem como esta, impulsionar a pessoa em direção a perspectivas novas e surpreendentes a respeito de assuntos que a pessoa julgava já esgotados há muito."

Trecho 4
"Mas qual é o sentido em estar sempre especulando o que poderia ter acontecido se uma dada ocasião tivesse um desfecho diferente? É provável que assim uma pessoa acabe perdendo o juízo. De qualquer maneira, embora seja válido falar em "momentos decisivos", certamente só se pode identificar tais momentos em retrospecto. Naturalmente, quando hoje se rememora essas ocasiões, elas podem realmente tomar a aparência de momentos cruciais e preciosos na vida da pessoa; mas na época, é claro, esta não era a impressão que se tinha."

Trecho 5 (fala de Miss Kenton)
"Afinal, não se pode fazer o relógio voltar. Não se pode estar eternamente pensando no que poderia ter sido. É preciso ter consciência de que se tem uma vida tão boa quanto a maioria, talvez melhor, e sentir gratidão por isso."

ISHIGURO, Kazuo. Os vestígios do dia. Tradução Eliana Sabino. 2ª edição. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. 233 p.
Nota: 9,0/10

sábado, 12 de setembro de 2009

Várias Histórias - Machado de Assis

Primeira vez que leio uma coletânea de contos organizada pelo próprio Machado – o que permite ver mais claramente a relação entre as histórias. Algo recorrente é o aspecto trivial que os personagens adquirem quando confrontados com os de Homero, de Shakespeare, de Charles Perrault, de Goethe... Não por acaso, a partir desse rebaixamento, Machado revela suas tragédias. Temos, por exemplo, Camilo, protagonista de A Cartomante, que descobre tarde demais a ferocidade com que a realidade ataca os que se entregam à fantasia e à superstição; Dona Severina, protagonista de Uns Braços, que após beijar um rapaz adormecido, à moda de um conto de fadas às avessas, acorda para o desespero de sua condição; e Pestana, protagonista de Um Homem Célebre, que vive o absoluto descompasso entre seus desejos e a possibilidade de realizá-los. Seja como contista, seja como romancista, considero Machado de Assis genial!

Trecho 1
"Hamlet observa a Horácio que há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras."
in A Cartomante

Trecho 2
"Mas há ideias que são da família das moscas teimosas: por mais que a gente as sacuda, elas tornam e pousam."
in Uns Braços

Trecho 3
"Adeus, meu caro senhor. Se achar que esses apontamentos valem alguma coisa, pague-me também com um túmulo de mármore, ao qual dará por epitáfio esta emenda que faço aqui ao divino sermão da montanha: 'Bem-aventurados os que possuem, porque eles serão consolados.'"
in O Enfermeiro

Trecho 4
"Tinha lido de manhã, em uma notícia de jornal, que há estrelas duplas, que nos parecem um só astro. Em vez de ir dormir, encostou-se à janela do quarto, olhando para o céu, a ver se descobria alguma delas; baldado esforço. Não a descobrindo no céu, procurou-a em si mesma, fechou os olhos para imaginar o fenômeno; astronomia fácil e barata, mas não sem risco. O pior que ela tem é pôr os astros ao alcance da mão; por modo que, se a pessoa abre os olhos e eles continuam a fulgurar lá em cima, grande é o desconsolo e certa a blasfêmia. Foi o que sucedeu aqui. Maria Regina viu dentro de si a estrela dupla e única. Separadas, valiam bastante; juntas, davam um astro esplêndido. E ela queria o astro esplêndido. Quando abriu os olhos e viu que o firmamento ficava tão alto, concluiu que a criação era um livro falho e incorreto, e desesperou."
in Trio em Lá Menor

Trecho 5
"O pior é que entre a espiga e a mão há o tal muro do poeta, e o Rangel não era homem de saltar muros. De imaginação fazia tudo, raptava mulheres e destruía cidades. Mais de uma vez foi, consigo mesmo, ministro de Estado, e fartou-se de cortesias e decretos. Chegou ao extremo de aclamar-se imperador, um dia, 2 de dezembro, ao voltar da parada no largo do Paço; imaginou para isso uma revolução, em que derramou algum sangue, pouco, e uma ditadura benéfica, em que apenas vingou alguns pequenos desgostos de escrevente. Cá fora, porém, todas as suas proezas eram fábulas. Na realidade, era pacato e discreto."
in O Diplomático

MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Várias Histórias. 4ª edição. São Paulo: Ática, 2004. 128 p.
Nota: 9,5/10

domingo, 6 de setembro de 2009

A Redoma de Vidro - Sylvia Plath

De traço autobiográfico, A Redoma de Vidro (1963) apresenta o processo de degradação mental da jovem Esther Greenwood (alter-ego de Sylvia Plath), suas várias tentativas de suicídio e os tratamentos a que foi submetida - internamento, dietas, eletrochoques... Subjaz à história central uma forte crítica à banalidade da vida, das relações humanas, da política, da religião. A grande qualidade da narradora me pareceu também seu maior defeito: a indiferença. Enquanto em alguns momentos essa indiferença me inquietou, em outros fez com que eu me sentisse indiferente e observasse de longe os fatos apresentados.

Trecho 1
"Era um verão estranho e opressivo aquele em que eletrocutaram os Rosenberg, e eu não sabia o que estava fazendo em Nova York. Não entendo de pena de morte. A ideia de ser eletrocutada me dá náuseas e esse era o único assunto dos jornais - manchetes garrafais me olhavam em cada esquina e em cada sufocante saída de metrô cheirando a amendoim. Aquilo não tinha nada a ver comigo, mas eu não conseguia parar de pensar em como seria ser queimada viva, até os nervos."

Trecho 2
"Eu me sentia como um cavalo de corrida num mundo sem pistas de corrida, ou um campeão de futebol na faculdade que de repente tem de encarar Wall Street e um terno-e-gravata, seus dias de glória se resumem a uma tacinha dourada em cima da lareira com uma data gravada, como numa lápide."

Trecho 3
"Quando perguntaram a um velho filósofo romano como gostaria de morrer, ele disse que cortaria as veias durante um banho morno. Pensei que devia ser fácil, deitada na banheira e vendo a vermelhidão de flor dos meus pulsos correr pela água clara, até que eu mergulhasse para dormir numa superfície colorida como papoula.
Mas quando chegou a hora, a pele de meu pulso parecia tão branca e indefesa que não consegui fazer. Era como se eu quisesse matar uma coisa que não estava sob aquela pele, nem no pulso fino e azulado que latejava sob meu polegar - estava em algum outro lugar, mais fundo, mais secreto e muito mais difícil de chegar."

Trecho 4 (após tentar se enforcar)
"Percebi então que meu corpo tinha uma série de pequenos truques, como esse de fazer com que - no último instante da salvação - minhas mãos soltassem, pois, se continuassem apertando, eu morreria na hora.
O que eu precisava fazer era atacar de surpresa com qualquer sentido que me restasse, ou ficaria presa naquela estúpida carcaça durante cinquenta anos, sem qualquer sentido. E quando as pessoas percebessem que eu estava maluca - acabariam descobrindo, mais cedo ou mais tarde, apesar de minha mãe não abrir a boca para falar nisso. Então, as pessoas iriam convencê-la a, em vez de me vigiar, me internar num hospício onde eu pudesse me curar.
Só que o meu caso não tinha cura."

PLATH, Sylvia. A redoma de vidro. Tradução Beatriz Horta. Rio de Janeiro: Record, 1999. 268 p.
Nota: 8,0/10

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

A Poética Clássica - Aristóteles, Horácio e Longino

Reúnem-se neste volume três dos mais importantes escritos sobre a produção, a crítica e o estudo da literatura: a Poética de Aristóteles, em que aparecem conceitos como a verossimilhança, a unidade da obra, o reconhecimento, a catarse e a imitação como forma de aprendizado e de prazer; a Arte Poética de Horácio, que postula o in medias res, ou seja, iniciar uma narrativa em meio aos acontecimentos que se pretende contar; e Do Sublime, atribuído por alguns a Longino, que investiga as fontes do sublime, destacando “o dom da palavra”, “a emoção veemente e inspirada”, “as figuras” (metáforas, hipérboles, gradações...), “a nobreza da expressão” (a escolha da linguagem) e o ritmo (a harmonia).

Trecho 1
"Parece, de modo geral, darem origem à poesia duas causas, ambas naturais. Imitar é natural ao homem desde a infância - e nisso difere dos outros animais, em ser o mais capaz de imitar e de adquirir os primeiros conhecimentos por meio da imitação - e todos têm prazer em imitar.
(...)
Outra razão é que aprender é sumamente agradável não só aos filósofos, mas igualmente aos demais homens, com a diferença de que a estes em parte pequenina. Se a vista das imagens proporciona prazer é porque acontece a quem as contempla aprender e identificar cada original; por exemplo, "esse é Fulano"; aliás, se, por acaso, a gente não o viu antes, não será como representação que dará prazer, senão pela execução, ou pelo colorido, ou por alguma outra causa semelhante."
in Poética, Aristóteles

Trecho 2
"Os anos, à medida que vêm, trazem consigo vantagens sem número; à medida que se vão, levam consigo um sem-número delas. Não se atribua a um jovem o quinhão da velhice, nem a um menino o dum adulto; a personagem manterá sempre o feitio próprio e convincente a cada quadra da vida."
in Arte Poética, Horácio

Trecho 3
"... a imitação encontra seu modelo nos efeitos da natureza, pois a arte é acabada quando com esta se parece e, por sua vez, a natureza é bem sucedida quando dissimula a arte em seu seio."
in Do Sublime, Longino (?)

Trecho 4
"... sei que as naturezas demasiado grandes são as menos estremes; a precisão em tudo acarreta o risco da mediania e nos grande gênios, assim como na excessiva riqueza, alguma coisa se há de negligenciar; talvez seja também inevitável, por jamais se exporem a perigos, nem aspirarem às alturas, permanecerem comumente irrepreensíveis e mais seguras as naturezas humildes e medianas, e estarem as grandes, por causa da grandeza mesmo, sujeitas a cair.
(...)
Eu mesmo já registrei não poucas falhas de Homero e dos outros maiores escritores; os defeitos não me proporcionaram o mínimo prazer; contudo, não os considero faltas voluntárias de bom gosto, senão lapsos casuais, produto inadvertido de incúria da genialidade; ainda assim, penso, embora as maiores perfeições não mantenham o seu nível em toda parte, devem receber o voto para o primeiro prêmio, se por nenhum outro motivo, pela sua própria elevação."
in Do Sublime, Longino (?)

ARISTÓTELES, HORÁCIO & LONGINO. A Poética Clássica. Tradução Jaime Bruna. 12ª ed. São Paulo: Cultrix, 2005. 114 p.
Nota: 8,5/10