Antônio, mercador em Veneza, faz um trato com o judeu Shylock: toma-lhe emprestado três mil ducados sob a condição de que, caso não consiga saldar a dívida, entregará uma libra de carne de seu próprio corpo. Como é possível imaginar, reveses impedem o pagamento, levando seu credor a acionar a justiça. Salta à vista a parcialidade com que a figura do judeu vai sendo construída nas primeiras cenas: uma alma perversa, impiedosa, vingativa, ávida pelo dinheiro, o "diabo encarnado". Com que objetivo o autor faz isso? Partilharia ele dos preconceitos de sua época? Pode ser que sim, pode ser que não. O fato é que, no decorrer da peça, a maldade caricatural de Shylock acaba revelando ao leitor a incoerência no discurso dos outros personagens que, por serem (ou por se rotularem) cristãos, têm-se na mais alta consideração. Trecho 1
"Antônio: Na verdade, ignoro a razão de minha tristeza. Ela me obseda; dizeis que ela também vos obseda; porém, como eu apanhei, nela tropecei ou a encontrei, de que matéria é feita, de onde nasceu estou ainda para saber. Ela me torna tão estúpido que tenho grande trabalho para reconhecer-me."
Trecho 2
"Shylock: Vós me chamastes de infiel, cão assassino e cuspistes em meu gabão de judeu; tudo isto, pelo uso que fiz do que me pertence. Muito bem; parece que hoje necessitais de meu auxílio. Avante, pois! Vindes a mim e me dizeis: 'Shylock, teríamos necessidade de dinheiro'. Dizeis isto, vós que expelistes vossa saliva sobre minha barba e que me expulsastes a pontapés, como enxotaríeis de vossa porta um cão vagabundo. Pedis dinheiro. Que devo dizer-vos? Não deveria responder: 'Um cão tem dinheiro? É possível que um cão tinhoso vos empreste três mil ducados?' Ou, então, devo inclinar-me profundamente e, com um tom servil, prendendo minha respiração num murmúrio de humildade, dizer-vos isto: 'Arrogante senhor, cuspistes sobre mim na última quarta-feira; vós me expulsastes a pontapés em tal dia; noutra ocasião me chamastes de cão; por todas essas amabilidades, devo emprestar-vos tanto dinheiro?'"
Trecho 3
"Shylock: Então, um judeu não possui olhos? Um judeu não possui mãos, órgãos, dimensões, sentidos, afeições, paixões? Não é alimentado pelos mesmo alimentos, ferido com as mesmas armas, sujeito às mesmas doenças, curado pelos mesmos meios, aquecido e esfriado pelo mesmo verão e pelo mesmo inverno que um cristão? Se nos picais, não sangramos? Se nos fazeis cócegas, não rimos? Se nos envenenais, não morremos? E se vós nos ultrajais, não nos vingamos? Se somos como vós quanto ao resto, somos semelhantes a vós também nisso. Quando um cristão é ultrajado por um judeu, onde coloca ele a humildade? Na vingança. Quando um judeu é ultrajado por um cristão, de acordo com o exemplo cristão, onde deve ele colocar a paciência? Ora essa, na vingança! A perfídia que me ensinais, eu a colocarei em prática e ficarei na desgraça, se não superar o ensino que me destes".
Trecho 4
"Shylock: Que sentença devo temer, não havendo feito mal algum? Tendes entre vós numerosos escravos que comprastes e que empregais, como se fossem burros, vossos cães e vossas mulas, em trabalhos abjetos e servis, porque vós os comprastes. Posso dizer-vos: dai-lhes liberdade, casai-os com vossas herdeiras? Por que estão suando debaixo de tanto peso? Por que as camas deles não são tão macias quanto as vossas? Por que não lhes servis os mesmos alimentos que os vossos? Vós me respondereis: 'Os escravos nos pertencem'. Muito bem, do mesmo modo eu respondo: 'Esta libra de carne que reclamo, custou-me muito dinheiro, é minha e eu a conseguirei. Se ela me for negada, anátema contra vossa lei! Não há força nos decretos de Veneza! Quero justiça. Será que a conseguirei? Respondei."
SHAKESPEARE, William. O mercador de Veneza. In: Comédias e Sonetos. Tradução F. Carlos de Almeida Cunha Medeiros; Oscar Mendes. São Paulo: Abril Cultural, 1981. p. 279-367.
Nota: 8,5/10
Trecho 2
"Shylock: Vós me chamastes de infiel, cão assassino e cuspistes em meu gabão de judeu; tudo isto, pelo uso que fiz do que me pertence. Muito bem; parece que hoje necessitais de meu auxílio. Avante, pois! Vindes a mim e me dizeis: 'Shylock, teríamos necessidade de dinheiro'. Dizeis isto, vós que expelistes vossa saliva sobre minha barba e que me expulsastes a pontapés, como enxotaríeis de vossa porta um cão vagabundo. Pedis dinheiro. Que devo dizer-vos? Não deveria responder: 'Um cão tem dinheiro? É possível que um cão tinhoso vos empreste três mil ducados?' Ou, então, devo inclinar-me profundamente e, com um tom servil, prendendo minha respiração num murmúrio de humildade, dizer-vos isto: 'Arrogante senhor, cuspistes sobre mim na última quarta-feira; vós me expulsastes a pontapés em tal dia; noutra ocasião me chamastes de cão; por todas essas amabilidades, devo emprestar-vos tanto dinheiro?'"
Trecho 3
"Shylock: Então, um judeu não possui olhos? Um judeu não possui mãos, órgãos, dimensões, sentidos, afeições, paixões? Não é alimentado pelos mesmo alimentos, ferido com as mesmas armas, sujeito às mesmas doenças, curado pelos mesmos meios, aquecido e esfriado pelo mesmo verão e pelo mesmo inverno que um cristão? Se nos picais, não sangramos? Se nos fazeis cócegas, não rimos? Se nos envenenais, não morremos? E se vós nos ultrajais, não nos vingamos? Se somos como vós quanto ao resto, somos semelhantes a vós também nisso. Quando um cristão é ultrajado por um judeu, onde coloca ele a humildade? Na vingança. Quando um judeu é ultrajado por um cristão, de acordo com o exemplo cristão, onde deve ele colocar a paciência? Ora essa, na vingança! A perfídia que me ensinais, eu a colocarei em prática e ficarei na desgraça, se não superar o ensino que me destes".
Trecho 4
"Shylock: Que sentença devo temer, não havendo feito mal algum? Tendes entre vós numerosos escravos que comprastes e que empregais, como se fossem burros, vossos cães e vossas mulas, em trabalhos abjetos e servis, porque vós os comprastes. Posso dizer-vos: dai-lhes liberdade, casai-os com vossas herdeiras? Por que estão suando debaixo de tanto peso? Por que as camas deles não são tão macias quanto as vossas? Por que não lhes servis os mesmos alimentos que os vossos? Vós me respondereis: 'Os escravos nos pertencem'. Muito bem, do mesmo modo eu respondo: 'Esta libra de carne que reclamo, custou-me muito dinheiro, é minha e eu a conseguirei. Se ela me for negada, anátema contra vossa lei! Não há força nos decretos de Veneza! Quero justiça. Será que a conseguirei? Respondei."
SHAKESPEARE, William. O mercador de Veneza. In: Comédias e Sonetos. Tradução F. Carlos de Almeida Cunha Medeiros; Oscar Mendes. São Paulo: Abril Cultural, 1981. p. 279-367.
Nota: 8,5/10









